O corpo de Govaldo


Meu corpo, se eu pudesse dar um nome… Eu chamaria de Govaldo. Um personagem fictício, supostamente um alterego que criei na adolescência pra suportar certas dores por mim… As dores do passado, presente e futuro. Como se eu pudesse ver claramente eu me fudendo na vida.

Creio haver discussões do significa um corpo. Será que um corpo é a síntese desorganizada de tudo o que um humano vivo é… Alma, psique, nervos, pele sangue, pelos, senso comum e moral, etc . Ou será que o corpo é somente aquilo que se pode tocar e um receptáculo de coisas abstratas que compõe outras entidades que se conciliam pra formar um ser vivo.

Pernas grossas, panturrilhas que um atleta diria que não são boas pois não garante agilidade, tronco redondo preenchido com gordura, um peitoral que devido ao peso possui de acordo com o senso comum algum feminilidade, mãos gordinhas que o povo diz serem macias, braços que medem metade da altura total de 1,73; uma cabeça grande, uma papada sobre um pescoço de tamanho médio, olhos castanhos, boca ressecada, um nariz que quando estou magro é pontudo e grande, e quando gordo é pequeno e proporcionalmente estético ao corpo.

Dizem que eu sou o dono desse corpo que acabei de descrever. Dizem que tenho direitos sobre ele, e que ninguém pode mandar nele. Queria acreditar nisso. Queria desprogramar meu corpo a obediência que ele tem com a sociedade. Queria desnuda-lo de todas as ligações que ele fez por anos, pois elas não são relevantes quando sua estética já não condiz com o que é aceitável pelas pessoas ao redor.

Meu corpo não é um produto da história de 26 anos de um homem de classe baixa, meu corpo não é o resultado de diversas conexões em diferentes níveis de relevância, meu corpo não é o sinal de que sobrevivi ao exterior e de desenvolvimento do interno. Meu corpo não é o que se move e balança pela cidade trabalhando, estudando, limpando a casa, fazendo comida, escrevendo esse texto, ouvindo músicas, cantando músicas, vendo entretenimento numa tela de computador e outras coisas mais.

Meu corpo é gordo e negro, e isso é tudo o que se vê. Não importa se estou trabalhando, o corpo é gordo, ele com certeza não está trabalhando. Não importa se estou escrevendo, o corpo é gordo não tem relevância se a escrita e a produção textual é relevante ou tem qualidade. Não importa se estou sorrindo ou chorando, o corpo é gordo e negro, não tem porque se perguntar se há interações sociais ou vida afetiva, esse corpo não aparenta merece-lo. Não importa se estou sozinho, o corpo é gordo e negro, a saúde mental e física desse corpo não merece atenção e questionamentos.

Aparentemente, meu corpo é vazio quanto tudo se resume a forma como o externo o vê. Eu tento esquecer várias vezes que vivo em sociedade, para a relevância do meu corpo não se matar na falta de afeto e suporte emocional. Mas é inevitável não ter conexões, não ter história, não ter necessidades ou dependência com alguém. A autonomia que eu devia construir para meu corpo é utópica e os questionamentos e reflexões sobre isso superficiais, quando ainda caminho pela cidade. Um corpo não devia caminhar sozinho pela cidade. Ou será que devia quando não é o corpo esperado pelas pessoas.

Govaldo, o nome do meu corpo, não se sente livre com esse corpo, não se sente conectado com os outros por esse corpo, apesar de tantas coisas que possui, que de alguma forma podiam conectar ele aos outros. A transferência de arquivos desse corpo com o que há de fora não é concluída, é informado que os arquivos estão corrompidos. Os outros corpos não aceitam a transferência pois o pendrive que contem esses arquivos está com uma aparência duvidosa, está sujo, tem as pontas desgastadas, a visão de fora diz que pode ter sofrido com o calor e destruído as placas internas que tornariam possível uma transferência bem sucedida.

É mentira! O aparelho que tentei me conectar tem configurações e demandas que não aceitam a transferência por esse tipo de meio. É isso que eu tento me convencer quando não dá certo. O melhor é jogar o pendrive fora, né? Não tem nem possibilidade de backup dos arquivos, já se descrevem como corrompidos. Tudo se perdeu, foi um desperdício adquirir esse produto, se eu soubesse que ele podia se desgastar com o tempo e perder sua utilidade.


JOGA FORA! PEDAÇO INÚTIL QUE NÃO SE CONECTA COM NADA!



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